segunda-feira, 12 de abril de 2010

TEMPO DAS ÁGUAS

O tempo tem se arrastado por aqui. Sinto como se já fosse outubro e o calendário ainda transcreve abril. Queria eu a certeza de que o semestre de diferença indicasse maturidade, realização, a mais. Assalta-me, porém, o medo de que signifique vida, energia, a menos... cansaço, pressão, demais. Pior é o vislumbre de morte, afundando-me em alto mar - eu, que sinto já ter nadado um mar inteiro enquanto observo um horizonte que me mostra seis outros cercando qualquer vista de praia.

Já não há desespero nem impotência relativos a passado e futuro, mas ao próprio presente diante da mínima possibilidade de eu parar. Cansar-me, desistir de continuar buscando mudanças, rupturas. Pergunto-me se não é esta a mesma intensidade de turbulência que me paralisou um dia. Intensidade talvez, mas não a mesma qualidade. Esta turbulência - de ruptura -, ao contrário daquela, move-me... o que está vivo, de alguma maneira, move-se. É preciso mover-me, primordialmente em mim mesma, para que eu queira e consiga sustentar meu próprio voto de vida. E isso mesmo talvez implique num tempo pessoal que corre tão mais rápido, com muita energia e vitalidade, cansaço e pressão, que mal cabem no calendário.

Embora me incomode, há ainda isto que me faz produzir, escrever, e que, por-tanto, prezo - este perene mal-caber, este quase-transbordar, este movimento vida-morte mar afora. Mar afoga? Na turbulência há o profícuo que gera a dúvida, a maturidade e a realização que produzem o texto, a água que ingenuamente asfixia, abraça e/ou banha somente quem se dispõe ao risco.

Com a terna esperança de que nem sempre afoga quem se afunda, às vezes é preciso se aventurar ao mergulho, desligar-se do tempo ar-terra, quando tudo o que se pode viver verdadeiramente é o tempo do - desconhecido - alto mar. Agora é sempre tempo... preciso - e vou - mergulhar.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

JEFERSON

Admita, vai! Admita que esse sorrisão é por tudo que a gente é junto. Admita que você é feliz comigo e adora meu cheiro, meu corpo e até meu jeito quase sempre desajeitado de me vestir. Pode assumir que adora quando a atitude é minha e eu coloco você aqui dentro com a avidez de uma viúva negra, ainda porque de viúva não tenho nada - você é cada dia mais vivo - e a minha cor é mesmo a que você escolher. E, primordialmente, admita que tem vontade de me bater,  de tanta raiva, quando eu banco a implicante, chatíssima, tentando chamar sua atenção das maneiras mais infantis possíveis. É sim, você morre de raiva e eu acho mais legal ainda e faço mais, de novo e de novo, me sentindo a melhor das mulheres quando sua feição muda, por isso fico sempre à espreita e nunca perco nada que vem a mim, de você.

Não admita, então, não, deixa eu dizer pra você que meu sorriso também é nosso e não tem resposta certa quando pergunto se você está mais bonito ou eu mais apaixonada. E que também quase nos afogo em tanto tesão quando você se faz dono de mim e da situação, mostrando com tamanha perícia quem é o homem do casal e, então, quem manda aqui é você. Assumo, nunca vi tanta elegância, verdade e coragem numa pessoa só, e não fique mal acostumado, mas eu adoro quando você não diz o que eu quero ouvir, ao falar sempre tanto em tão pouco e me fazer procurar por que, mesmo apesar de mim, você continua aqui. A resposta está no meu coração, né, seu sacana, e você sempre ganha um pouco mais de mim quando de um jeito tão e só seu, consegue fazer eu me ver um pouco através dos seus olhos, que também nunca me perdem, sequer num detalhe, de vista.

E porque tudo isso é seu e de mais ninguém, eu batizo estas linhas com o seu nome que fica ressonante o tempo todo na minha cabeça, pra não deixar dúvidas mesmo, porque você é presente - meu presente, de presente -, e eu não quero saber de lá fora, futuro ou passado passando, não... você é tudo o que eu quero viver, dizer, ali, agora, aqui, acolá... agora.

Meu sempre surpreendente presente, tudo isto é nosso.

segunda-feira, 29 de março de 2010

DECLARAÇÃO

Quer saber? Por hoje me dou o direito de julgar, de não perdoar, de acordar com mau humor, de não ser o que você ou eu esperamos de mim; assumo o direito de decepcionar e de me decepcionar. Permissão eu me dou pra errar, desconfiar, maldizer, desprezar, desejar, tolher, odiar.

Só por hoje. Deixo a gentileza de lado por ainda confundi-la com imprescindibilidade. Não, eu não quero a sua gentileza nem disponho da minha. Vá pedir sorriso e abraço a outro. Se você não precisa de mim, nada mais justo do que eu me permitir o esforço em prescindir de você.

Por hoje digo não. Chega. Cansei. Que tudo se exploda. Que você se exploda, se esse for o preço de eu continuar inteira. Eu me permito, por hoje, ser chata e falar eternamente de mim, sem dar nada em troca a ninguém, egoísta sim, eu não quero ser sua amiga e não quero essas culpas todas, eu não confio em você. Quero é alardear que estou em mil cacos colados e que, caso em mil eu me parta novamente, em algum lugar por aqui tem bastante cola e eu adoro mosaicos.

Por hoje não se esforce em manter qualquer laço, eu me esforçarei menos, não me importa. Não me cobre, eu não vou ouvir. Não me solicite, pra você não estou. Por hoje me deixo em paz, deixe-me, você também, em paz. Só por hoje.

Então, até amanhã.

terça-feira, 23 de março de 2010

AMARELINHA ROXA

Matei-me quando percebi
que nada disto faz menor sentido.

Problema maior
é quando minha própria morte
impede-me de dormir (n)a vida.

Quintana, aquele guri arteiro,
constatou ser o tempo,
da eternidade, a insônia...

Nietzsche, vê, meu querido?!
O tempo também está morto!

terça-feira, 16 de março de 2010

SOBRE DIREÇÕES

Quando alguém se apaixona por nossos erros, tem mesmo esta vantagem: pelo menos a gente sabe que o abismo fica logo aqui. Então podemos, acompanhados, vir direto.

O problema é quando vem um cidadão se apaixonar pelos meus acertos vacilantes - fico tão mas tão perdida sempre... porque esse caminho eu nunca sei onde pode dar. E quem vai querer definitivamente acompanhar alguém que não sabe aonde está indo, alguém que não sabe, sequer, se quer chegar?


terça-feira, 9 de março de 2010

SOBRE (NÃO) CONFIAR

- Você não confia em mim? Por que, então, nunca fala?
- Por que é tão difícil aceitar meu silêncio? Você não confia em mim ou em si mesmo?

quarta-feira, 3 de março de 2010

AGNÓSTICA

eu bem que tento
(des)acreditar
deus