domingo, 20 de março de 2011

DONA

Eu queria, numa hora destas, ter palavras a dizer a uma mãe que sofre, uma mãe que já tentou de tudo, que já apanhou da vida de todas as maneiras possíveis. Mas eu não tenho nada, além da minha solidariedade, além da minha disposição, além do meu abraço. Queria poder dizer que as coisas estão assim por isso e é assim que se resolve, mas eu não sei porque as coisas estão assim e eu também não consigo prognosticar. O que dá pra dizer é que você foi e é suficiente, é importante, é o máximo que pode, é e dá o máximo de si e não há do que se culpar. A vida às vezes nos prega peças e a gente ou se entrega ou se fortalece pra montar, das peças, os mosaicos. Você, mãe, é forte. Você é o ser que, quando nasceu mãe, nasceu para montar mosaicos de sorrisos e lágrimas, de carícias e porradas. Você é o mosaico da própria existência e não há o que questionar. É, parece-me, uma questão de abraçar colando agora e a qualquer momento todos os cacos e não de fingir que eles não estão aí. São cacos coloridos que, quando reorganizados, remontados, transformar-se-ão em arte ancestral materna, que só você é capaz de criar. Crie(-se), reinvente(-se), comemore(-se), a cada novo baque que espatifar tudo pelo chão - é a matéria prima da sua obra sendo gerada. Orgulhe-se. A grande obra apolínea e dionisíaca de arte, tudo ao mesmo tempo, ontológica e ôntica, é você. Disseram que o impossível é o que ninguém tentou. Você é a dona do impossível. Deus lhe abençoe.

"Escuta, meu filho, recebe um sábio conselho,
não rejeites minha advertência.
Mete os teus pés nos seus grilhões,
e teu pescoço em suas correntes.
Abaixa teu ombro para carregá-la,
não sejas impaciente em suportar seus líames.
Vem a ela com todo o teu coração.
Guarda seus caminhos com todas as tuas forças.
Segue-lhe os passos e ela se dará a conhecer;
quando a tiveres abraçado, não a deixe.
Pois acharás finalmente nela o teu repouso.
E ela transformar-se-á para ti em um motivo de alegria.
Seus grilhões ser-te-ão uma proteção, um firme apoio;
suas correntes te serão um adorno glorioso,
pois nela há uma beleza que dá vida,
e seus líames são ligaduras que curam.
Com ela te revestirás com de uma vestimenta de glória,
e a porás sobre ti como uma coroa de júbilo."
(Ecl, 6; 24-32)

TERMÁTICA

E agora é você quem me diz que vai dar tchau por um tempo e eu não sei o que será de mim sem você por perto. Eu aceito, eu espero, mas não sei o que será de mim. Eu saberia, se fosse um adeus, porque não sou acostumada a meios termos - eu saberia lidar com o extremo, amor.  Mas o meio termo é que mexe de verdade com o mais extremo de mim: da saudade, do medo, do caos, da solidão e do próprio amor.  Tenho medo de me doar ao extremo, de me arriscar extremamente ao meio termo sob pena de qualquer possibilidade de fracasso. Mas, pela primeira vez na vida, vou mergulhar nisso, corresponder ao seu "até mais" e fazê-lo florir com você o que pudermos, cada um na ausência meio-termática do outro. Nos extremos, enfim verdadeiros, das nossas doações, nos extremos enfim verdadeiros do que somos capazes de receber de alguém. Por amor, aprendendo, ensinando. E esse alguém sou eu. E esse alguém é você.

"Mudai, Senhor, a nossa sorte,
como as torrentes nos desertos do sul.
Os que semeiam entre lágrimas,
recolherão com alegria.
Na ida, caminham chorando,
os que levam a semente a espargir.
Na volta, virão com alegria,
quando trouxerem seus feixes."
(Salmo 125; 4-6)


sábado, 19 de março de 2011

(DES)LEMBRADO

Não é que eu vá me esquecer - é que para o meu próprio bem, farei questão de não me lembrar. Para quê lembrar do que você fez de mim, dessa maldade que provavelmente nem você sabe de onde veio? Já me basta saber. E o que eu farei disso é tocar a vida, como se não soubesse, pois que quem não se lembra, não sabe. Faz de conta que é mais um delírio, uma fantasia com sentidos outros que não a realidade com sentido em si. Faz de conta que você fez tudo certo e foi o melhor do mundo, como todo mundo adora alardear, mesmo eu sabendo que você não foi. Há mágoa? Não. Tristeza, há. De haver confiado tudo. É engraçado não poder confiar nem nas pessoas em que a gente mais deveria poder confiar. Mas isso faz a gente mais forte. Eu que sempre me achei tão fraca, uma casquinha de ovo, sinto-me hoje uma muralha de pedra, por ter suportado sempre tão tudo em meio a esta avalanche de vida que tem sido os anos que transcorrem - sem precisar enumerar os fatos, você bem sabe. Eu vou ficando por aqui, não há muito mais a dizer, além de que só vim atestar meu deslembramento, meu desmembramento, meu desvincular dessa história triste que até hoje foi. Hoje recomeça. De outro jeito, por outros caminhos, em novas companhias, com novos confidentes, que amigos são a família que a gente pode escolher, acho que foi assim que em algum lugar li. E venho eu reconstruindo minha vida, minha família, meu presente e meus horizontes. Obrigada por fazer de mim a muralha que sou hoje. Está perdoado. Deslembrado e perdoado. Amém.

sexta-feira, 18 de março de 2011

NICHOS

Nem raiva você merece de mim. É, você mesmo, que está aí, atravancando meu caminho, como diz Quintana - você, sim, é a centopéia que passará e eu, passarinho. Nem inveja, nem desdém, nem nada dessa feiura que eu escrevi anteriormente... nem estes textos horríveis você merece, ou melhor e aliás, é isso o que vocè merece, apenas estes textos horríveis, você, que fica aí, sentado nessa cadeira suja de bunda quente, achando que manda e desmanda na burocracia que nem é sua, de que nem você entende direito. Você sabe o que é burocracia, ao menos? - Só por curiosidade, teoricamente falando. Não, você não sabe e eu não vou me dar o trabalho de lhe explicar, porque não é o que você faz. O que você faz é dificultar e apedregulhar o caminho dos que querem chegar aonde você não chegou e o nome disso não é burocracia, o nome disso é inveja, é amargura, isso sim é niilismo, é raiva, é vida jogada fora que você tenta desesperadamente fazer gente como eu sentir por você pra que você mesmo pare de sentir. Mas você é tão fraco e tão pequeno e tão mesquinho e tão solitário e tão sem asas e sem pernas de centopéia - porque centopéia, de cem pernas poderia ao menos dançar -, que você apenas se arrasta e dá botes e destila venenos. Do seu veneno gente como eu faz soro antiofídico, lhe pega pelo pescoço, lhe enforca na própria corda, coleciona seus guizos. É isso aí, gente como eu coleciona seus guizos e sai voando, dançando em cem pernas, serena e pacientemente, enquanto você continua aí, no seu nicho feio e nojento. Gente como eu faz música percursionada do seu guizo... tsc tsc tsc... tsc tsc tsc... que se mistura com o barulho das asas, e os passinhos dançantes sincrozados de centopéias agitando freneticamente. É por causa de gente como você que existe gente como eu, Graças a Deus, que escreve certo por linhas retas. E a epifania chegou. Bom dia, cobra no banco do bote. Vá trabalhar que eu vou colecionar e tocar guizos, e bater minhas asas pra que centopéias dancem. Cada um no seu nicho. Desde já, grata.


quinta-feira, 17 de março de 2011

DE NIETZSCHE

É inveja, é revolta, é desdém - dos mais puros - o que eu sinto agora. Dessa gente obviamente muito menos competente, menos inteligente, menos sensível, menos sagaz do que eu, que, de repente, como se eu merecesse o castigo, enquanto minhas genuínas asas amarradas observam, alça vôos com asas de papelão. Como é que pode eu me deixar mutilar deste jeito? De onde foi que vieram estas amarras? Como me desvencilhar delas sem  podar minhas próprias asas para não ser passarinho a ciscar no chão? Chão não é lugar de pássaro e céu não é lugar de centopéia. Chovem centopéias com asas de papelão. Está tudo errado. Errada estou eu - e quem sou eu para julgar alguém centopéia no sentido mais pejorativo da metáfora? Que lírica horrorosa! A mais feia que já escrevi. Pois é como está o meu mundo - invejoso, cheio de raiva da vida, dos outros e de mim mesma. Como foi que (não) cheguei aqui? E desta feiura eu nem ao menos consigo arrancar uma sequer palavra avassaladora de esperança, um mínimo clímax ou qualquer reticência que termine o texto em epifania. Paciência? E se eu não amanhecer viva? O que foi da minha vida? Palavras jogadas a um vendaval de desabafos (in)sensíveis? Terá isto algum valor diante de Deus? Terá isto algum valor aqui, diante dos homens? Lágrimas no papel turvam a vista, as linhas vão se acabando junto com o texto. Não há mesmo mais nada a dizer... deve ser este o tal do niilismo.

terça-feira, 15 de março de 2011

SOCIPSISMO

E eu continuo aqui, expelindo todos os nãos que ainda mantenho retidos - pleonasmo? - em mim. Não é você ou ele ou ela que eu coloco pra fora pelos buracos do corpo, descobri. Sou eu mesma: são os meus próprios desejos contidos, enraivecidos, depois de compulsivamente devorados. Não cabem. É um excesso que não dá pra guardar sozinha. O mundo precisa aceitar, o mundo precisa saber, o mundo precisa aprender a lidar comigo e eu preciso aprender a lidar com o mundo. De que me adianta este ciclo imbecil de devorar e vomitar excesso de mundo, sem limites, sem sabores, sem prazeres? É só dor e asco. De que me adianta a espera de que algo maior me aconteça pra que tudo isso pare? Um remédio, uma sessão terapêutica, um dia de sexo selvagem, um conto de fadas eterno - se nada disso existe, o que existe sou eu e o que posso fazer de mim e do que o mundo faz do que eu faço do que o mundo faz de mim que faço do mundo. O que eu tenho feito do mundo? Este lugar perigoso, em que qualquer gesto ou palavra ou desejo pode se voltar contra mim. Coisa da minha, e só da minha, cabeça. O mundo é lugar de receber e dar, sem tantos medos. Há que se desconfiar, pois que não vivo sozinha, mas nem tanto. É hora de moderar e emagrecer de desejo, pois que o desejo não é só meu. É hora de me equilibrar e andar nas duas pernas, pois que as duas são minhas e ninguém é obrigado a me servir de escoro. É hora de descobrir que há mãos que querem se dar. Aqui e acolá. E a hora é agora. Até já.

segunda-feira, 14 de março de 2011

BOREN

Porque você passou por mim dançando, desde o início, dançando. Em silêncio. Se esfregando no meu corpo, nas minhas vísceras, sem me invadir de remorso ou sentimento de morte ou posse ou inveja. Você passou por mim dançando meu corpo no seu corpo no meu e tudo numa única sinfonia de pureza e fraternidade que nunca passaram. A verdade é que você não passou. E por mais que isto pareça uma declaração de amor, é só amizade, amigão. É só vontade de dizer que você não vá embora nunca porque descobri finalmente em você alguém despretensioso, com quem posso compartilhar qualquer silêncio sem esperar (dar) nada em troca. Porque você improvisou comigo, você dançou, em silêncio verborrágico, você sorriu, quase chorou, você se meteu e fez sexo, sem fazer, aonde foi chamado, chamou, sem ser. Seja. Esteja. Permaneça. Sempre bem vindo. Porque meu silêncio dançante ainda é seu e eu quero que o seu, se e quando possível, ainda seja meu. (Des)obrigada.