Era um criminoso. Um homem bem ruim, daqueles que outro homem não conseguiria perdoar. Talvez nem ele mesmo conseguisse perdoar-se. E foi na correria, fugindo da polícia, daquele policial em fúria, pelo que ambos sabiam ser o pior crime do mundo, que Mineirinho morreu. Mas ele, antes, correu, correu muito, sem saída, já clamando a Deus que desse-lhe o perdão que nem ele mesmo podia. Mineirinho corria e chorava. Foi pelas costas que o tiro chegou, bem no meio das costas. Caiu de cara na poça d’água – era tarde de tempestade, eu ia me esquecendo de dizer. E o policial, antes que se afogasse, quis olhar no seu rosto, pra, quem sabe, chutar sua cara e atirar mais umas dez vezes. Aproximou-se, desafogou-lhe a cara da lama, a tempo de olharem-se longamente nos olhos um do outro. Perderam-se naquele olhar. O crime já era o mesmo – a prepotência, a incapacidade de perdão, a ira. Foi quando percebeu que a poça d’água-lama era apenas espelho. E Mineirinho ele mesmo era. Mineirinhos eram ambos. Mineirinhos, naquele momento, de apenas um tiro e olhos nos próprios olhos, morreram. E é assim que escrever pode mudar as coisas, Clarice. E você mudou muitas, ao menos em mim.
Na central de destinos
um toque de luz
me torna de novo
um menino.
Os grandes olhos do universo
me seguem atentos
nesta jornada infinita
pelo tempo...
*...
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