A madeira sente que cada mudança de estação
traz ou leva consigo um prego.
A cada prego que vai seu respectivo locus fica.
É cômodo e fácil, pois menos doloroso e dolorido,
encarregar o Tempo dos pregos
e dos buraquinhos deixados pelos pregos.
Difícil mesmo é reparar a Porta
sabendo que outros pregos hão de vir e ir.
Porque as estações continuam mudando.
Só que o Tempo não resolve nem pregos,
tampouco buracos: o Tempo habitua a Porta
ao ir e vir das estações, à dança ferrenha e inevitável dos pregos.
A Porta fica, aparentemente, menos dolorida, mais resistente,
porém não menos marcada: buraquinhos aumentam em quantidade,
aumenta a reincidência de pregos nos mesmos buracos.
Mais habituação, mais resistência.
Chega a hora em que, de tantos buracos, a Porta de madeira
- habituada e tão resistente - desaparece.
Sem reparos, sem enfrentamento e sem recomeços,
a Porta nem teve tempo pra se dar conta
de que o Tempo nada resolve.
No fim das contas, o Tempo some com a Porta.
No fim das contas, o Tempo consome a Porta.
Quem é o que sente, quando não sente, deixa de ser.
Na central de destinos
um toque de luz
me torna de novo
um menino.
Os grandes olhos do universo
me seguem atentos
nesta jornada infinita
pelo tempo...
*...
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