quinta-feira, 17 de junho de 2010

POUSO VINTE E DOIS

Deixem em paz o meu amor, minhas lembranças, os meus valores e odisséias. Deixem em paz minhas dúvidas, o meu passado, minha tristeza, meu desespero, o meu cansaço. Deixem em paz meu não querer, a minha ausência, os meus silêncios, meus vazios, minhas multidões. Deixem em paz a minha arte.

Deixem em paz  o meu medo, os meu sins,  minha raiva, os meus espelhos, minha saliva, a indiferença.  Deixem em paz os meus ouvidos, os meus pra sempres, minhas falências, meus absurdos, as desistências, as minhas faltas, minhas solidões, os meus excessos, meus equilíbrios, meus vícios, meus desapegos. Deixem em paz o meu sexo.

Deixem em paz as minhas lágrimas, meus gritos, minha surdez, meus descaminhos, meu lixo e meu barulho.  Deixem em paz o meu canto, a timidez, meu salto alto, meus delírios, minha calma, os nãos, minha presença, o meu abraço, minha fraqueza, meus abandonos. Deixem em paz o meu tesão, a minha dança, os meus abismos, os meus cabelos, as minhas travas e os meus banhos. Deixem em paz os meus limites.

Deixem em paz os meus olhos, as rejeições, minhas mentiras, meus arrepios, os nuncas mais, a minha fome, meu sono, meus desdizeres, as controvérsias, a minha força, meus pensamentos e meu futuro. Deixem em paz a minha boca, a minha pele, minhas feridas, minhas potências, as cicatrizes, meu sangue, meu mijo, meus tênis, meu chocolate, as minhas garras, meu cobertor, a minha merda.  Deixem em paz o meu desejo.

Deixem em paz meus suicídios, filosofias, minhas loucuras, meus sonhos, meus horizontes e meus impulsos.  Deixem em paz o meu discurso, minhas verdades, os meus avessos, minhas partidas. Deixem em paz meus homicídios, minhas saias, os meus perdões, minhas culpas, meus dramas, o meu cansaço, o meu cansaço, o meu cansaço. Deixem em paz os meus temperos.
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Agora se virem, todos, por favor, aceitem a parte que lhes cabe da responsabilidade, vão embora e ensinem-me a me deixar em paz e, quem sabe um dia, consigamos voltar. Deixemos em paz a minha morte.



terça-feira, 15 de junho de 2010

DESCONCERTAR

Eu encontro verdadeiramente as pessoas inclusive nos pontos dos ônibus tantos avós amigos amores crianças das minhas mesmas cores alegrias dores tão outros vários diferentes diversos dispersos imersos de mim em mim presentes olhares sorrisos mesmo ausentes me devolvem sempre turbulenta paz enquanto solidões alheias abraçam e se abraçam em minha eterna solidão amores se amando aqui dentro vazam deságuam transbordam drenam irrigam o que somos nossos rios mares todos um só em plural de espelhos sem metalinguagem é a coisa que sou de você em você em mim no silêncio sem sentido sentindo sentidos mil ensaiando sobre o caos que só o é sem ser. Desconserte-se-me.

COMPOSIÇÃO

"Sempre conservei uma aspa à esquerda e à direita de mim." "Não gosto tanto de mim a ponto de gostar das coisas de que eu gosto. Amo mais o que quero do que a mim mesma." "Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio." "E eu só sei viver as coisas quando já as vivi. Não sei viver, só sei lembrar-me.” "Não quero ser somente eu mesma. Quero também ser o que não sou." "Não se pode dar uma prova de existência do que é mais verdadeiro, o jeito é acreditar. Acreditar chorando." "O que me mata é o cotidiano. Eu queria só exceções." "Faz de conta que ela não estava chorando por dentro, pois agora, mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado.”

(Clarice Lispector)

"Um poema como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata
perdida para sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia
que a sua misteriosa condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza."

(Mário Quintana)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

CRIA

- Você quer saber por que eu mato pessoas? Pra impor respeito.

- Como assim?

- Algumas pessoas só te respeitam por medo. E mato quando sinto vontade, quando quero forjar algum controle, ou impressão de controle, sobre alguém.

- Quem você pouparia?

- Pouparia, não. Eu poupo. Poupo quem me respeita sem sentir medo de mim, mesmo que discorde. E poupo quem não tem medo de morrer, eu é que não vou fazer esse favor a ninguém. Mato pra desfavorecer. E também me disponho a ser convencido de critérios diferentes e até contrários. Você, por exemplo, está na sua hora, o que você vai dizer pra me convencer de continuar vivendo ou de morrer?

- Eu não tenho medo de você, mas também não me importo em morrer ou viver. Acho até bom que você assuma o controle e decida por mim.

- Não, eu já disse que não faço favores. A sua dificuldade é decidir? Decida você sobre o que você quer e tente me convencer. Eu espero.

- Mas eu não tenho critério. Talvez até tenha, e o meu único critério é sentir até ficar insuportável, é só quando insuporto que consigo decidir. E agora tudo que eu sinto é medo, não de você, mas de decidir antes de insuportar.

- Insuportar o quê?

- A vida ou a morte. Ainda são suportáveis agora, mornas demais. Não desejo nenhuma das duas com a força que eu gostaria. Você já decidiu por si?

- Não. Nunca por mim. Meu limite é decidir pelos outros, quando eles acham que podem muito decidir por eles mesmos. Tome a arma, é sua. Decida você por mim, não me importa. Controles não existem.

- Só porque eu também sei decidir apenas pelos outros, é sempre menos difícil. Então, até que eu encontre alguém que se sinta bem em decidir por mim, isto é por puro respeito... a nós dois. - Alguém no corredor ouve o tiro e entra: "Meu Deus, ele está morto! O que é isso?" - Você quer saber por que eu mato pessoas?

terça-feira, 8 de junho de 2010

NÃO

Organizarei este texto circunscrevendo a desorganização: do início ao fim, profunda desordem. Porque eu quero falar de tudo agora, mas não sei fazer dadaísmo. Eu quero falar de você e quero falar de mim, de saudade, cansaço, preguiça, arte e silêncio. Eu gosto tanto do silêncio... no silêncio às vezes eu queria ser mãe, esposa e cozinheira, mas as vezes eu queria ser puta. Queria alucinar trepando, mesmo com medo de não voltar. Eu que tanto temo os orgasmos pelos seus finais, tenho medo de eternidades. Acho mesmo é que eu só queria poder cuidar e ser cuidada, sem me preocupar com pra sempres ou nuncas mais. Não me importa que amanhã meu olho não tenha brilho ao ver você, hoje teve e foi intenso, não duvide, foi verdade, e não me importa que o seu olho não brilhe mais, brilhou agora e eu vi e lhe brilhei de volta. Deve ser esse o tal do “carpe diem”, mas se fosse assim simples, todo mundo viveria isso. Há expectativa também no carpe diem, nem que seja de um carpe diem recíproco. No que você pensará ao ler isso? Será que eu me torno sua esposa e a mãe dos seus filhos e cozinho pra você só porque escrevi que tenho vontade? Será que eu viro puta, se eu quiser? Só se você aceitar o convite e seria bom que sim, o único jeito de ser amoral, dizendo e comendo você verbalmente, em todas as posições possíveis, gritando e dizendo minha boca não, a boca não, não me pague, me pegue, me dê a sua verdade, seu cheiro, o brilho do seu olho e a sua pele e mesmo que amanhã não haja mais nada, eu sei que agora há. Dinheiro eu não quero, só quero você, a boca sim, eu quero demais, mas não posso, porque não quero amanhãs, carpe diem é a lei, se eu tocar sua boca o sol não vai nascer nunca mais, eu não me importaria, mas as pessoas não gostam de frio, as pessoas não gostam de escuro, eu poderia viver no frio e no escuro, mas não sem contagiar o mundo. Eu acho que não pagaria esse preço pra ser sua puta e sua esposa e cozinheira e melhor amiga e a mãe dos seus filhos, só agora, mesmo com tanto frio e tanto escuro neste não. Eu tenho medo é de amanhecer de vez. Eu é que não suportaria tanto calor e tanta luz. Você suporta? Eu quero mais é ver um filme e ler um livro e ouvir uma música e ficar quietinha esperando que nada aconteça no meu carpe diem resignado. Mas a boca, a boca sim, antes de qualquer coisa a boca, tocando, dizendo, comendo, lambendo, chupando... e nada, nada disso é seu, nem meu, a gente presenteia o presente e deixa tudo aqui, e depois a gente esquece, você finge que não foi nada e eu finjo que foi menos ainda. E voltamos a falar... silêncio não. A ordem é desordenar, anarquismo, política... quem quer saber de política? Cansaço, saudade. Você e eu.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

PARA LÍVIO (e outros)

Falte, sempre que quiser e precisar,
mas saiba que sua presença
faz sempre muita falta.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

SENTIDO

Ele: Não sei como você gosta de chiclete de canela... faz tanto sentido quanto sorvete de... elefante!... Como que fazem chiclete de um pau?

Ela: Quê isso! É gostoso... você também iria gostar de sorvete de elefante... principalmente se tivesse flocos de pele de elefante... você gosta tanto de proteína, imagina... pele de elefante parece ter proteína!

Ele: Não... não tem nada a ver... sorvete de elefante, imagina: você pega o elefante, coloca no espremedor de elefante, pega embaixo com um copo e põe leite, bate e congela.

Ela: Mas qual o problema em pôr flocos? Nem se tiver proteína?

Ele: Porque flocos de elefante não devem ser bons - elefantes são... seres!