Tantas pessoas vêm e vão num espaço de tempo que é e parece sempre tão curto... e a gente parece sempre estar neste lugar cruel de quem fica, de quem, mesmo tocando a vida, mesmo escrevendo lírica, espera o próximo (re)encontro. Que será de nós-emigrantes nos corações alheios? Será que a espera de lá é igualmente doída, ansiogênica? Será que dá neles vontade de que saibamos tudo o que lhes foi na nossa suposta cruel ausência? Será que na hora do (re)encontro esses anseios todos se esvanecem e dão lugar ao silêncio, mesmo falado, do simplesmente existir? Eu nunca antes reparei, mas posso apostar, aqui, em espera, sinceramente, que sim.
Meninada, hoje vou contar a vocês a primeira história. Ela fala de um menino que conversava com Deus. Ele nem sabia que era Deus - chamava de João, seu amigo invisível. O nome do menino era Chico. O Chico perguntava e o João respondia. Batiam o maior papo. Chico descobriu que João era feito de luz azul e falava todas as línguas e que o universo era imenso e existiam vários universos diferentes deste e, neles, outros humanos, parecidos com estes; e que João também tinha amigos - feitos de luz e feitos Chico.
Chico também contava suas coisas, ouvia e sabia muito bem de quase tudo, mas ninguém acreditava nele - mandavam pra psicólogo, psiquiatra, benzedeira, pra ver se parava com aquela ideiada boba e essa conversaiada sozinha. E Chico foi ficando triste, coitado... por que João não se mostrava a mais ninguém para provar logo que era de verdade? Por que deixava todo mundo achar que Chico estava era mesmo doido, todo zuado da cabeça?
E o Chico, com raiva, foi crescendo e mandando o João calar a boca. Mas não teve jeito: o João gostava mesmo daquele menino e era dele mesmo que ele gostava, e não precisava de mais ninguém saber, não, ninguém mais acreditaria mesmo, nem sabendo, como o Chico bem acreditava. Então João insistiu um cadim, até que voltaram a ser best friends. Um dava palpite na vida do outro e tudo... era bonito de (não) se ver.
É como disse o Mário Quintana: "Deus é mais simples do que as religiões." E mais: "por favor, deixa o Outro Mundo em paz! O mistério está aqui."
Pois que, como disse Che Guevara, "sonhas e serás livre de espírito... lutas e serás livre na vida". O espetáculo de autenticidade, ao contrário do que o mundo espera, é só seu, e de mais ninguém. É atingir o ápice do que se almejava. É saber-se e alcançar o não mais desejo. A realização pessoal está dada e o que vier depois é luxo, brinde, dádiva. Não corresponde à perda de inocência, mas à reconciliação dela com o seu contrário - a afetação. Descobrir-se é entregar-se a si mesmo e ao mundo com a paixão de quem acredita naquilo que busca, sem demagogias. É delirar realidade para alcançar lucidez. É cravar em si a estaca do próprio espelho - dói, fere e escandaliza, mas não mata.
devo e preciso agradecer toda força e empenho em superar tuas míseras dificuldades discursivas e expositivas para dedicar-me tão satisfatória resposta. Veio, de fato, suprir a urgência que eu tinha destas simples, porém intensas palavras. Meus gritos andavam mudos e perdidos em tamanha emoção. A posteridade possui, deveras, o dom de minguar minha já pequenina existência. E o pouco que resta de mim não tem conseguido transcender meus limites a ponto de desabrochar em versos tão imensuravelmente radioativos. Ainda assim, minhas verdades continuam vivas e crepitantes, aspirando momento e fôlego oportunos para se universalizarem, quase tão pretensamente apócrifas quanto as tuas.
Tuas linhas aborreceram-me, porém eu não as rotularia entediantes: acenderam em mim fogo e audácia nunca antes sustentados por minhas mãos trêmulas. Afinal, acostumei-me à ingenuidade em crer que cada poesia tem maneiras, motivos ou fundamentos literariamente palpáveis ou dizíveis.
E, talvez por isso, eu tenha tentado discutir contigo essa tal literatura. Não havia percebido que os grandes não o espalham aos quatro cantos: deixam em paz a poesia, amam-na baixinho, pois conhecem toda a força de sua brevidade. E, mesmo aos sussurros, conseguem mantê-la segura – como se somente os verdadeiros poetas pudessem entender a metalinguagem: a explicação do inexplicável, o alcance do inatingível. A poesia é, enfim, um tesouro sem excessos, o mais belo de todos, dotado de um parasitismo quase tão ininteligivelmente profícuo quanto a própria vida.
É por tudo isso, meu Mestre, que ainda temo entregar-me completamente ao sádico hedonismo de meus versos. Esta freqüente luta por vezes enfraquece-me e faz-me querer desistir da estimada bênção poética. É, no entanto, meu mais atraente desafio: conseguir, daqui a vinte anos, escrever tão pálida ou expressivamente quanto faço hoje, aos dezessete. E os truques da moda sim, que desconfiem da aparente efemeridade de tantas entrelinhas!
A métrica tem sido a explicação mais formal, plausível e lógica para o perfeccionismo de um genuíno poeta em relação aos próprios versos. É, não a causa, mas o resultado racional - mais ainda, matemático - de todos os cortes contorcionistas por que o poema passa até a sua conclusão: o soneto só tem dois quartetos e dois tercetos porque, conservador e inabalável, se sentiu melhor assim. Já os versos livres são iconoclastas infatigáveis dançando, frenética e pornograficamente, um tango lexical. Ambos conseguem, assim, transbordar, lenitivos, as essências líricas de seus respectivos eus.
Toda a confluência que tenho experimentado apresenta-me grandes amigos. Amigos que sempre estiveram comigo. A quem, aos poucos desembrulho. E desembrulho-me. E, se a ti respondo, é porque respondo, assim, a todos eles. Obrigada, meu caro Mestre. E apareça-me sempre.
Eu li tudo, mas só corrigi as primeiras poesias e coloquei algumas dicas técnicas ao longo delas. Em geral, gostei muito do conteúdo, mas posso dizer que, dos finais dos poemas, alguns me soaram pobres. Além de prezar pelo minimalismo, o que a Clarice Lispector deixou como dica, e você já faz, um poema tem que vir com um clímax, uma virada, uma fenda para que o leitor interprete o que quer que seja à sua própria maneira. É bom impessoalizar nossa escrita, para que mais gente se identifique com ela. Como? Você fala dos sentimentos, mas não fala dos fatos – nesses poemas foi os em que eu achei que você foi mais feliz. Ou fala dos fatos internos, usando metáforas, analogias, como no poema em que você usou o futebol, Tafarel, etc. No mais, você está no caminho certo. Se tenho alguma autoridade para julgar o assunto, vejo sim, potencial na sua escrita. Parece-se muito com a minha, quando comecei. Ainda vai amadurecer um bocado. Não pare nunca de ler, de receber suas “influências”, são o que de melhor nos fazem lapidar. Vou lhe indicar dois textos ótimos, um do Caio Fernando Abreu, chamado “Carta ao Zézim”, e o outro, do Mário Quintana, “Carta a um Poeta”. E é isso aí. Continue. Não pare, não. Se lhe faz bem, se é disso que você gosta, e eu gosto do que já é e do que pode vir a ser, continue muito, continue sempre. Um grande abraço.
Gabi.
Tá aí a "falta de ânimo", o porquê de eu não passar no "Ídolos" - vergonha. Tenho vergonha de cantar até pra câmera. Tem também o cigarro que está fodendo com a minha voz. Aliás peço sugestões aqui de músicas pra cantar (vou pedir a alguém, em quem eu confie, que me filme), de estratégias pra parar de fumar e de assuntos novos sobre o que escrever. E até mesmo de lugares pra onde mandar meu currículo pra conseguir emprego, eu tô aceitando. Valeu, pessoal! Desde já, obrigada. Este post, com o vídeo, eu dedico à Ariana.
A menina cresceu. Depois de ver passado, presente e futuro diante de seus olhos, ela cresceu e não sabia o que fazer disso. Sentia-se perdida na multidão. Procurava amigos com quem pudesse conversar, mas não podia compartilhar todos os seus segredos numa terapia e nem um amigo podia-lhe ser terapeuta para tirar-lhe o medo de viver. E ela precisava juntar tudo, mas não sabia por onde nem como começar. Simplesmente não sabia como nem mesmo descrever. Deixava-se levar – pelas horas, lazeres, acontecimentos, orações, palavras, companhias, comidas, sonos, que, embora fossem abundantes, não pareciam nunca suficientes. Havia tanto medo naquele hiato entre uma coisa e outra, tanto medo de ser o que tinha de ser. Tanto medo de não ter mais perguntas. Era isso – faltava-lhe perguntas. Então ela se apegou à pergunta, talvez, desaprisionadora: qual pergunta faltava? E lhe vieram outras: será que as respostas encontradas eram mesmo certeiras? Seria possível refazer, reconstruir a si mesma passado, presente e futuro que pareciam agora tão cristalizados? Por onde ela começaria? Pelo presente e futuro, ela pensou... chega de passado, que passado reconciliado não precisa descristalizar. Era hora de se mexer pra refazer qualquer coisa mudar, em silêncio, dançando, cantando, poetizando, não importava. Havia chegado – aquela era a hora exata de agir. Aquela era a hora exata de se crescer-encontrar.
Era um criminoso. Um homem bem ruim, daqueles que outro homem não conseguiria perdoar. Talvez nem ele mesmo conseguisse perdoar-se. E foi na correria, fugindo da polícia, daquele policial em fúria, pelo que ambos sabiam ser o pior crime do mundo, que Mineirinho morreu. Mas ele, antes, correu, correu muito, sem saída, já clamando a Deus que desse-lhe o perdão que nem ele mesmo podia. Mineirinho corria e chorava. Foi pelas costas que o tiro chegou, bem no meio das costas. Caiu de cara na poça d’água – era tarde de tempestade, eu ia me esquecendo de dizer. E o policial, antes que se afogasse, quis olhar no seu rosto, pra, quem sabe, chutar sua cara e atirar mais umas dez vezes. Aproximou-se, desafogou-lhe a cara da lama, a tempo de olharem-se longamente nos olhos um do outro. Perderam-se naquele olhar. O crime já era o mesmo – a prepotência, a incapacidade de perdão, a ira. Foi quando percebeu que a poça d’água-lama era apenas espelho. E Mineirinho ele mesmo era. Mineirinhos eram ambos. Mineirinhos, naquele momento, de apenas um tiro e olhos nos próprios olhos, morreram. E é assim que escrever pode mudar as coisas, Clarice. E você mudou muitas, ao menos em mim.
Na central de destinos
um toque de luz
me torna de novo
um menino.
Os grandes olhos do universo
me seguem atentos
nesta jornada infinita
pelo tempo...
*...
A visão que nós temos sobre nós mesmos é algo muito forte.
Eu sempre tive uma sensação de que o mundo é meu e que se eu realmente me
dedicasse a qualquer ...
Tendo visto com que lucidez e coerência lógica certos loucos justificam, a
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Pessoas, a fim de organizar o que tenho escrito ao longo das décadas, esta
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em out...
NIETZSCHE: OS CONCEITOS DE VIDA E SOFRIMENTO COMO INSTRUMENTOS NA PRÁTICA
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Há uma necessidade agora de humanidade, meu amor.
De uma coisa toda. Nada de restos e pedacinhos.
Nada de bem ou mal me quer. Muito menos de esperar que h...
há qualquer coisa de sagrado
nessa minúcia escorrida
da poesia deixada no chão
ao lado da cama
essa poesia
não precisa ser lida
coloco um bom som
há anéi...
É que daí sempre que leio algo que promove uma ruptura em mim, qualquer
ruptura que permite o ato criativo, aí eu crio em cima daquilo que eu
acabei lendo....
Não te espero mais! Agora é tua vez, e recomendo paciência, eis que há de
ser demorada a hora pois perdeste a chance de me levar em teus braços
quando eu s...
essas mãos, ásperas, trôpegas, delirantes, sutis, sensíveis, suaves,
trôpegas...se tocam devagar em um movimento sensual, sedutor, sexual.
dançam uma vals...
Feita em 23/10/2010
Laços tímidos
sutis, escondidos
no mais profundo mistério
que nos envolve
e nos carrega
juntas
feito enxurrada de verão
rumo à mais inex...