O caso é grave, meu amigo. É por isso que tenho escrito, ainda que muito em falta, a você, que sequer existe - porque não acho que alguém por aqui mereça. Não há lírica que eu queira fazer a qualquer destinatário em especial, já que tampouco há sentimento em mim que eu não consiga demonstrar contidianamente, num abraço, numa presença, numa conversa. É bem isto: nenhum sentimento tem transbordado de mim, além deste excesso de falta.
O descontentamento, agora, vem de outro lugar... quero dizer, o que antes era, em mim, um cãozinho cego perdido na selva, sem onde nem como, é hoje, ainda solitário, um passarinho cansado, buscando par e lugar de pouso, uma onça atenta e faminta desejando companhia e sossego - seja lá qual metáfora você prefira.
É tanta busca e tanto cinismo, que mal consigo escrever. As palavras me saem rompidas. Pesadas. Pausadas. Partidas. E não há o que fazer, senão esperar. Até o pensamento está fraturado, percebe? E eu, que tentaria discorrer sobre as metáforas, páro, sem mais. A esmo. Sem lágrima. Sem frio. Sem chuva. Sem tempero. Sem estrelas. Entre terra e céu, isto e eu.
Eu, que hoje, entre mentiras obtusas e dúvidas vãs, já ouso saber quem estou, o que quero, de onde vim. E de que adianta, me diga? Aceitei o encontro: a psicologia passou por aqui e me abriu todos os zíperes diante do espelho, me trouxe mil vezes a mim e me ensinou a sair... a vida encheu minha mochila de cacos, vozes, abraços, arte, ciência e cola.
Vi a barbárie de mim mesma e a barbárie do mundo, acreditei e desacreditei mais mil vezes... conheci não-eu e eu, em molduras e vísceras... e, para quê? Só para descobrir que há quando, onde, como... há porquê, meu amigo, mas aqui não há quem. Não há você e não há eu. Só há isto que sempre vai faltar: a resposta definitiva, o quê entre a vida e a morte, entre o humano e o instinto, entre o amor e o sexo, entre o sentir e o pensar, entre o corpo e alma... há, gravemente, isto, entre qualquer deus, você e eu.
É isto que, por hoje, não termina o texto. É onde ninguém chegou.
Trecho do documentário "Estamira": recomendo.
"Tentei descobrir na alma alguma coisa mais profunda do que não saber nada sobre as coisas profundas. Consegui não descobrir." (Manoel de Barros)
4 comentários:
Ótimo texto. Li em voz alta - estou sozinho em casa. Deu outra cara...
Pois é, Gabriela, pode ser que não haja respostas definitivas, mas há uma série de perguntas permanentes.
(Aliás, acho até que vou escrever este comentário... em meu blogue...)
Entre nós existem sustenidos e bemóis que nunca serão alcançados.
Eu leio o seu texto e penso: é tão longe, todo mundo é tão longe, mesmo tentando tanto ser a alteridade... Mas é bonito e inalcançável, como a linha do horizonte.
Sobre o vídeo, que lucidez tamanha, e que engraçada seleção. :D
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