(das cartas nunca entregues.)
Brasília, 18 de março de 2007.
(...) Por isso, várias vezes lhe provoquei raiva, desconcerto, decepção, de propósito. Eu gosto, tanto quanto você, de saber que se eu for uma cagona que vai tocar o foda-se pro mundo porque acho que ninguém se importa, alguém vai dizer que se importava e eu não sabia. Porque eu realmente não sabia. Tanto quanto você, testo a paciência, a tolerância e a expectativa das pessoas que me acham suficientemente boa. Não sou e não acho que eu mereça e não acho que eu consiga corresponder a quaisquer expectativas. Eu me decepciono o tempo todo e, às vezes, fazê-lo voluntariamente é só um jeito de fingir que dói menos, dizendo para mim mesma que eu só fui ruim porque quis.
Eu nos amei de verdade e talvez ainda ame. Mas respeito o seu medo da fragilidade, da expectativa, o seu medo de me decepcionar. Respeito porque convivo com meu espelho todo dia e ele vive me dizendo que tudo o que eu recebo é demais para mim. Eu não cresci aprendendo que merecesse algo por ser boa. Ser boa, na minha educação, nunca passou de obrigação. E uma hora eu também me cansei. Quero ser reconhecida, e não ignorada nem exaltada, quando eu for boa. Não sou boa porque gosto e nem porque é fácil. Ser boa dá um puta trabalho, que eu decidi só ter quando eu estiver afim. Ser assim, resignadamente boa, sob critérios sempre carentes e falhos, hoje, é o meu reconhecimento a quem eu considero bom pra mim.
Eu teria abraçado e vivido com você o que quer que fosse esse seu afeto represado. Dói de verdade ter arrancado isso de você decepcionando, ferindo, metendo sinceramente os pés pelas mãos. Eu queria ter conseguido, mas não consigo ser tão presunçosa antes de dizer adeus, antes de dar a guerra por vencida. Também tenho os meus limites, de raiva, medo, desconfiança. Também tenho as minhas cicatrizes e chega uma hora em que não dá mais pra fingir que elas não estão aqui. Esta guerra, finalmente, eu perdi para mim mesma.
Da quase sua, com o carinho e a verdade de sempre e com a entrega de raras vezes.
Vídeo: Vestido Estampado / Me Deixa em Paz (Ana Carolina)
"I don't want to lie. I can't tell the truth. So it's over."
(Do filme "Closer")
"I don't want to lie. I can't tell the truth. So it's over."
(Do filme "Closer")
6 comentários:
sem palavras, só carinho....
No encontro com o outro, o voltar-se para si - e para o texto.
É verdade, Lívio... eu não conseguiria ser mais essencial do que você foi, num comentário.
Esperar muito de si mesmo é um erro.
Esperar muito, também é.
Do poder esmagador das expectativas e outras coisas.
Que texto cruel, amiguinha.
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